Réplica (Revista Pátio - novembro de 2001) Sobre o livro didático Vera L. Duarte de Novais A Associação Brasileira de Autores de Livros Educativos (Abrale) conta, entre seus associados, com muitos leitores deste importante veículo de difusão de trabalhos relativos à educação. Esses profissionais, seriamente preocupados com a qualidade de seu trabalho, sentiram-se atingidos por algumas idéias expostas no artigo Educação pelo argumento, da edição número 17 (maio/julho 2001), centrada em temática relevante para a educação brasileira: a formação de educadores ao longo da vida. Nesse artigo, em que dois professores universitários defendem interessantes idéias sobre o trabalho pedagógico relacionado às capacidades de ler, escrever e raciocinar, há uma surpreendente referência ao livro didático: "Entendemos que o chamado livro didático é uma falácia, contribuindo para a alegria das editoras e para o desperdício do dinheiro público, uma vez que o seu inegável sucesso vem acompanhado, o que não é nenhuma coincidência, da desqualificação moral, intelectual e, é claro, salarial do professor. O livro didático vem substituindo as bibliotecas, os laboratórios e os próprios professores, entronizando no lugar maus instrutores". É no mínimo contraditório que os pressupostos desenvolvidos no próprio artigo - cuja ênfase recai sobre a argumentação - tenham sido abandonados, e que a argumentação tenha descambado para a generalização e a agressão aos autores de livros didáticos, sobretudo por estabelecer uma relação de causa e efeito entre o sucesso desse tipo de obra e a desqualificação moral, intelectual e salarial do professor. Esquecem-se os autores do artigo que livros didáticos são utilizados em toda parte, inclusive em países desenvolvidos. Além disso, embora muitas obras – como a Bíblia, O capital, A origem das espécies - tenham marcado indelevelmente a história da humanidade, parece excessivo supor que livros didáticos tenham o poder de desqualificar moral e intelectualmente um enorme grupo de profissionais. A ofensa, como se vê, transita dos autores de obras educativas para os professores que recorrem a esse instrumento de trabalho. Cabe perguntar ainda: quem seriam os "maus instrutores" que o texto menciona? Quem trocaria um laboratório por um livro? Seriam falaciosas também as obras didáticas que recomendam o uso do laboratório e orientam os professores a esse respeito? Quem, em sã consciência, seria capaz de propor a troca de um professor por um livro educativo? Ao indicar bibliografia para pesquisa, os livros didáticos constituiriam ameaça às bibliotecas? Do ponto de vista da Abrale, a situação de obras educativas no panorama brasileiro é paradoxal: embora se condenem a priori tais publicações, evitam-se discussões contextualizadas sobre a natureza e o papel das mesmas. Para reverter esse quadro, é essencial o abandono de visões maniqueístas da questão para dar lugar a análises que contemplem as diversas facetas dessas obras: seus pontos fracos, suas contribuições e suas relações com o contexto sócio-político e educacional vigente. A complexidade da questão e a importância que o livro didático tem para a escola brasileira - infelizmente carente de espaços e recursos que favoreçam o estudo e a reflexão sobre este e outros temas da área de educação - requerem que outras publicações, igualmente sérias como a Revista Pátio, dêem a oportunidade para o aprofundamento da questão. Vera L.Duarte de Novais é presidente da Abrale. E-mail: vnovais@uol.com.br
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